Autor: em 19/11/2017
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Escravidão Branca: O lado obscuro da história que não te contaram.

É fato indiscutível que negros foram escravizados durante séculos, e esse foi um lado da história deveras disseminado e contado com direito a dados e dados de algo perverso e sombrio em nossa história. Acontece que brancos também foram escravizados, e esse é um lado da história que não te contaram, por pura desonestidade!

Sim! Por desonestidade, visto que a quantidade de livros existentes acerca desse tema é gigantesca. Desde “White Slaves, African Masters: An Anthology of American Barbary Captivity Narratives” de Paul Michel Baepler; “White Cargo: The Forgotten History of Britain’s White Slaves in America” de Don Jordan e Michael G. Walsh, “White Gold: The Extraordinary Story of Thomas Pellow and Islam’s One Million White Slaves” de Giles Milton à “They Were White and They Were Slaves: The Untold History of the Enslavement of Whites in Early America” de Michael A. Hoffman. Há mais de vinte títulos disponíveis na internet.

Com o avanço do Império Otomano na Europa, muitos povos europeus foram escravizados, e até mesmo quase dizimados. A título de exemplo, os escravos portugueses. O Império Mouro permaneceu de 711 d.C. até 1452 d.C. na Península Ibérica, somando 741 anos de ocupação e bem como a escravidão do povo cristão. Uma vez que, mesmo após serem expulsos, continuaram a escravizar portugueses, principalmente os que moravam no litoral e assim eram alvos fáceis.

Não obstante, a escravização negra na América não foi dada apenas por brancos em domínio de negros. Um caso, no mínimo curioso, é de um homem negro que foi o primeiro dono de escravos nos Estados Unidos. E ele ganhou tal direito via decisão judicial. Com total certeza, você jamais ouviu falar em “Antonio, o negro”, este foi um angolano que começou a escravatura nos EUA após ser capturado e vendido para a Virginia Company.

Outra história chocante: entre 1627 e 1807 escravos irlandeses, em torno de 130 mil pessoas (não sabe-se ao certo os números reais, porém estima-se ser em torno disto), foram presos, renegados de suas terras e enviados para colônias em Barbados para serem escravizados a mando de Oliver Cromwell. Dentre eles, homens, mulheres, crianças foram transportados em navios negreiros para as colônias inglesas na América. Para Cromwell, essa era uma conjunção boa: livravam-se dos irlandeses e a rapidez do transporte era bem maior em comparação à África, o que gerava um menor custo fazendo com que ele lucrasse mais. Diferentemente do que costumamos ouvir, os trabalhadores irlandeses também lutaram sob o sol escaldante dos Barbados, desta forma ganhando o nome depreciativo “Pernas Vermelhas”.

E fugindo um pouco do tema principal deste artigo, se me permite, existiu ainda o maior traficante de escravos do Brasil: Francisco Félix de Souza, o homem que foi capaz de enviar 500 mil escravos ao Brasil, e este, não era branco.

Apesar das fontes sobre Francisco serem escassas, ele teria nascido na Bahia e entre 1792-1795 foi para o território que hoje pertence ao Benim, antigo Reino de Daomé, onde traficou escravos para o Brasil.

Com o reinado de Guezô, Félix de Souza se torna o “Cháchá”, título que fazia questão de abusar e chegou ainda a ser reconhecido como “chefe dos brancos”, quando ele tinha que negociar com comerciantes europeus.

No livro “Francisco Félix de Souza, mercador de escravos”, Alberto da Costa e Silva faz um trabalho esplêndido e disseca ponto a ponto do maior traficante de escravos que o Brasil conheceu.

Não existe um rosto, uma feição, ou uma foto, que seja, ao certo de Francisco, muitas vezes, ele é retratado com essa:

E em 8 de Maio de 1849, aos 94 anos de idade, Francisco morre, deixando nada mais, nada menos que 80 filhos homens e 51 viúvas, os herdeiros do Cháchá ainda estão espalhados por vários países africanos. Com o mais recente sendo Honoré Feliciano Julião de Souza, o sexto Cháchá da Comunidade Souza, de Benim e Togo, de 95 até 2014.

Fonte: http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/francisco-felix-de-souza-traficante-de-escravos/

O americano Robert Davis ainda escreveu o livro “Christian Slaves, Muslim Masters: White Slavery in the Mediterranean, the Barbary Coast, and Italy, 1500-1800″ (escravos cristãos, senhores muçulmanos: a escravidão branca no Mediterrâneo, na costa Berbere e na Itália), onde ele mostra que existiram escravos europeus, logo, brancos, e que a escravidão chegou a causar enormes estragos na Europa com ataques de piratas da Norte da África. E os números são assustadores: passam de 1 milhão de escravos capturados na Europa e levados ao Norte da África para trabalherem, literalmente, como escravos.

Boa parte do que se escreveu sobre o escravagismo dá a entender que não houve muitos escravos [europeus] e minimiza o impacto da escravidão sobre a Europa”, disse Davis em comunicado.

“A maioria dos relatos analisa apenas a escravidão em um só lugar, ou ao longo de um período de tempo curto. Mas, quando se olha para ela desde uma perspectiva mais ampla e ao longo de mais tempo, tornam-se claros o âmbito maciço dessa escravidão e a força de seu impacto.” – Fonte: O Sentinela.

Acontece que quando se trata de história, sabemos que o lado vencedor a conta, o problema é que com a escravidão não houveram vencedores, mas perdedores, de várias etnias, que participaram e foram escravizadas como tais. E ainda assim, não são sequer lembrados pela nossa  educação.

Aqui, neste, faço questão de relembrar os fatos mais absurdos esquecidos pela história.

Artigo de autoria de Guilherme Wilbert e Flávia Krammer.